sábado, 17 de outubro de 2015

Hipnose ajuda a tratar depressão, ansiedade e estresse

Cercada de mistérios, a hipnose ainda é vista com olhos tortos por muitas pessoas. Talvez por seu passado obscuro, ligado ao curandeirismo e a rituais mágicos tão antigos quanto a humanidade. Poucos sabem, no entanto, que se trata de uma prática reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina como ferramenta de apoio ao diagnóstico e tratamento médico desde o fim da década de 90. E, como tal, de mística ela não tem nada.

MAIS SOBRE HIPNOSE
Você já fez terapia com hipnose? Como foi? 
Argentinos recorrem a hipnose para incrementar prazer sexualSistema de saúde britânico estuda uso de hipnose em partosA hipnose nada mais é do que um mecanismo mental, totalmente explicável pela ciência. De acordo com Osmar Ribeiro Colás, obstetra e especialista em hipnose da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), entrar em estado hipnótico é algo fisiológico, natural do organismo, que experimentamos várias vezes ao dia. "Entramos e saímos toda hora de estados de hipnose, pois não conseguimos ficar focados em algo o tempo todo", diz ThinkstockNa terapia da hipnose, a pessoa não fica "inconsciente", como se acredita; ela apenas tem seu senso crítico diminuído e, com isso, fica mais aberta às sugestões dadas pelo hipnoterapeuta.
Quando dizem que você está "viajando", focalizado em algo a ponto de nem escutar quando te chamam, você está, na verdade, em uma espécie de hipnose. Mesmo presente, sua concentração é tamanha que tudo em volta acaba sendo bloqueado da percepção. É como se sonhasse acordado.
"Quando estamos concentrados em uma tarefa e não percebemos o tempo passar ou o que acontece ao redor, estamos em um processo hipnótico, pois a mente esta focada naquela ação e, com isso, as outras atividades deixam de ser prioritárias e passam despercebidas", explica o psiquiatra Leonard Verea, formado pela Faculdade de Medicina e Cirurgia de Milão, na Itália, e especializado em medicina psicossomática e hipnose dinâmica.
Ninguém sai do corpo, "voa" para longe ou fica fora de si quando é hipnotizado. "Ela não é igual ao sono. É um estado alterado de consciência, mas que mantém a pessoa presente. Por isso, ela não ‘volta’ de lugar algum, porque na verdade ela não foi", diz Verea.
Nesses estados hipnóticos ocorre o bloqueio parcial da ação da mente consciente. "O senso crítico, que controla tudo o que você faz, fica diminuído, mas a consciência continua ativa", explica Colás.
O que a hipnose como prática médica faz é levar o paciente a esse mesmo estado mental, mas de forma coordenada, por meio da indução hipnótica. Isso permite que sugestões dadas pelo terapeuta sejam aceitas com maior facilidade. "Usamos estratégias de comunicação que levam a pessoa a entrar neste estado modificado de consciência. E, com isso, se você está bebendo um copo de água e eu falo para você que é suco, a mente ‘aceita’ a sugestão e sente como se fosse um suco", diz o médico da Unifesp.
Confiança
O primeiro passo para conseguir essa hipnose coordenada é o chamado rapport, que pode ser definido como um laço de confiança entre o terapeuta e o paciente, que poderá se soltar a ponto de ser conduzido em sua viagem hipnótica. "Todo o processo é muito mais uma processo de auto-hipnose, porque se a pessoa não quiser, ninguém conseguirá fazê-la entrar neste estado. Ela se coloca disponível, e o médico torna-se apenas um instrumento.



A prática da hipnose como método terapêutico é muito antiga. Técnicas de induzir sono e transe, tem sido usadas há milhares de anos, na Índia e na China, como parte de tratamentos feitos por médicos tradicionais. Relatos de médicos famosos da Antigüidade, como Avicena e Paracelcius, citam o uso de métodos que se assemelham à hipnose em sua obra.
.Existem ainda outros relatos do uso de técnicas semelhantes no passado, contudo o termo “hipnose” foi criado pelo neurocirurgião irlandês James Braid em 1842. Ele é considerado o pai da hipnose moderna.

Na descrição original de Braid os movimentos repetitivos dos olhos desativavam parte do cérebro expondo os conteúdos profundos, como o dos sonhos ao pesquisador. Essa teoria, entretanto, foi ultrapassada, e ainda não existem explicações definitivas sobre o fenômeno da hipnose.

Por que hipnose deixou de ser uma prática médica?

A hipnose esteve muito em voga na primeira metade do século passado. Mas o avanço da farmacologia e o desenvolvimento de drogas psicoativas, fez o interesse dos médicos por essa técnica praticamente desaparecer. Esquecida, a hipnose passou a ser vista como uma curiosidade do passado sem aplicação na medicina moderna. A maioria dos médicos deixou de considerá-la medicina baseada em evidências, ou seja, aquela que é comprovada pela ciência.

Alguns grupos de pesquisadores, entretanto, seguiram estudando a hipnose e a partir da década de 90 o interesse voltou a aumentar sobre seu potencial terapêutico. Com isso a pesquisa voltou a se intensificar nessa área. Existem, atualmente, mais de 3.500 trabalhos científicos publicados sobre hipnose em revistas médicas. O resultado foi o reconhecimento recente pela medicina que a hipnose é uma arma terapêutica que pode beneficiar portadores de muitas doenças.

Aplicação terapêutica da hipnose nos dias atuais

Segundo vários estudos científicos, já há um consenso universal sobre os benefícios da hipnose: reduz a pressão arterial, reduz os batimentos cardíacos, reduz a freqüência repiratória e ativa o sistema imunológico. A hipnose também infleuncia no limiar da dor assim como na sua interpretação subjetiva, sendo um excelente tratamento para diferentes tipos de dor crônica como dor fantasma e *neuralgia do trigêmeo.

A hipnose encontra ainda utilidade em diversas outras doenças, incluindo doenças inflamatórias do intestivo, arritmias cardíacas por estresse, controle de náuseas e dor no pós-operatório, redução dos efeitos colaterais de quimioterapia, fibromialgia, esquizofrenia, distúrbios do sono, depressão, ansiedade, dependência de drogas, etc.

Com o avanço das técnicas, aquela antiga imagem do paciente olhando para um pêndulo para ser hipnotizado foi abandonada. Hoje em dia, o paciente fica deitado e o estado de transe hipnótico é induzido pela voz do médico associada a técnicas de relaxamento. Uma sessão de hipnose costuma durar entre meia e uma hora e o paciente pode ficar sonolento depois. Mais recentemente o termo hipnoterapia tem sido proposto para designar a hipnose médica.

*Neuralgia do trigêmeo é uma dor muito intensa que ocorre na face (na região inervada pelo nervo trigêmeo) e cuja causa até hoje é desconhecida. Fonte Isto É